Os padrões de desenvolvimento humano e as atividades económicas causam um impacto relevante no planeta, deles resultando desafios de sustentabilidade de escala e urgência sem precedentes, como as alterações climáticas e a perda de biodiversidade global.

Este desenvolvimento preocupante levou a Fundação Calouste Gulbenkian a apoiar a realização de um estudo sobre o impacto intergeracional do uso de recursos naturais.

O artigo científico foi desenvolvido pelo MARETEC, centro de investigação do Instituto Superior Técnico, com a coordenação a pertencer aos investigadores Tiago Domingos e Ricardo da Silva Vieira.

A análise “Limites Ecológicos: O Impacto Intergeracional do Uso de Recursos Naturais”, que teve o peer review de Antonieta Cunha e Sá (NOVA SBE) e Miguel Bastos Araújo (Universidade de Évora), procurou, assim, calcular o impacto da utilização de recursos naturais pelas diferentes gerações em Portugal, identificando o legado (ou encargo) deixado às gerações futuras.

Gerações e variáveis analisadas

Foram estratificadas as gerações de acordo com seis faixas: 1900-1923 (Geração Pré-Baby Boomers); 1924-1939 (Geração Pré-Baby Boomers); 1940-1959 (Geração Baby Boomers); 1960-1983 (Geração X); 1984-1999 (Geração Y); 2000-2019 (Geração Z).

Ao todo, foram ainda consideradas seis variáveis: alterações climáticas; poluição da água; consumo de água doce; produção e deposição de resíduos; poluição atmosférica; destruição da camada de ozono; e pressão sobre os ecossistemas.

Portugal já ultrapassou o limite em todas as categorias ambientais

Neste estudo, os autores concluem que Portugal já ultrapassou o limite em todas as categorias ambientais, destacando-se, sobretudo, o impacto negativo ao nível das emissões de gases com efeitos de estufa, da produção de resíduos e da poluição da água e do ar.

Os docentes do Instituto Superior Técnico Tiago Domingos e Ricardo da Silva Vieira apuraram ainda que a herança das gerações passadas (ou mais antigas) tem um peso significativo nas alterações climáticas.

“As gerações mais velhas têm impactos ambientais per capita mais elevados do que as gerações mais jovens no que diz respeito à poluição da água e à pressão sobre os ecossistemas”, destaca Ricardo da Silva Vieira.

Em todo o caso, salientam os investigadores, “todas as gerações têm ultrapassado os diversos limites ecológicos, sendo o crescimento económico a principal causa da transgressão destes limites”.

A única exceção – indica o estudo – é a Geração Z “que, todavia, ainda não atingiu a idade na qual tipicamente se verificam os níveis de consumo mais elevados (seja de procura de energia, seja de consumo de água ou de produção de resíduos)”.

O facto de as gerações mais velhas terem feito uma utilização demasiado intensiva dos recursos do planeta e de terem ultrapassado os limites de emissões colocou pressão sobre as gerações mais novas, deixando-lhes uma menor margem de manobra: “Para serem sustentáveis, as gerações atuais e as futuras têm hoje disponível um limite de emissões que é 41% inferior ao que se verificou até aos anos 90”, afirmam os investigadores.

Apesar de, por um lado, ultrapassarem os limites em muitos indicadores ambientais, as gerações mais velhas, por outro lado, contribuíram para a implementação de políticas que ajudaram a dissociar parcialmente os indicadores ambientais do crescimento económico (PIB), dão conta os cientistas.

Relação entre PIB e pegada ambiental? Deixou de ser direta com políticas ambientais, referem os investigadores.

Assim, se o crescimento do PIB e a deposição de resíduos tiveram uma relação direta até 2000, a partir desta data essa relação direta deixou de existir. O mesmo se passou em relação às emissões de Gases de Efeito de Estufa, cuja relação direta com o PIB foi evidente até 2004, momento a partir do qual essa conexão íntima se perdeu.

Ricardo da Silva Vieira atribuiu a esse facto à entrada em vigor de políticas, a partir desses anos, que começaram a ser aplicadas e que permitiram que se dissociasse o crescimento do PIB do impacto ambiental.

Entre as políticas, introduzidas a partir dos anos 90, que reduziram os impactos ambientais da sua própria geração e das gerações mais jovens, os investigadores Tiago Domingos e Ricardo da Silva Vieira, do IST, salientam quatro:

  • A introdução do gás natural e o investimento em fontes renováveis de eletricidade tiveram um forte efeito na redução da poluição atmosférica e de emissões de gases com efeito de estufa;
  • As medidas de eficiência energética também tiveram um importante efeito em termos de emissões de GEE nos edifícios e nas indústrias transformadoras;
  • As políticas para combustíveis e transportes mais limpos têm tido um forte efeito sobre os poluentes atmosféricos;
  • As políticas de valorização de resíduos tiveram um efeito significativo sobre o impacte ambiental da eliminação de resíduos.

Outra ilação que os investigadores extraem dos dados é que os picos dos limites ecológicos estarem a ser atingidos cada vez mais cedo, o que significa que os impactos, de geração para geração estão a decrescer, “embora isso ainda não seja suficiente, pois estamos acima do limite”.

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