A Chatham House procurou perceber de que forma é que o sistema alimentar global contribui para o inquestionável aumento da perda de biodiversidade. Os resultados deste estudo foram partilhados com a sociedade através da publicação de um relatório.

O grupo baseia-se em factos para nos explicar como é que a produção de alimentos está a degradar e destruir habitats naturais. Algo que está diretamente relacionado com a extinção de várias espécies.

Citando a União Internacional para Conservação da Natureza (UICN), “a agricultura é uma ameaça identificada para 24.000 das 28.000 (86%) espécies que foram até agora sinalizadas como estando em risco de extinção”.

No âmbito desta sua pesquisa a Chatham House aborda também os desafios e compromissos inerentes a uma reestruturação do sistema alimentar. Reestruturação essa que o grupo garante ser crucial se quisermos efetivamente prevenir um agravamento da perda de biodiversidade.

O desenvolvimento dos tópicos acima referidos é também acompanhado por três propostas de ação pensadas e sugeridas pela Chatham House. Sendo mais específicos, o grupo apresenta três estratégias para se criar um sistema alimentar mais sustentável e, consequentemente, reduzir-se a pressão de que o Planeta Terra está a ser vítima.

O paradigma dos “alimentos mais baratos”

Ao longo dos últimos 50 anos a transformação de ecossistemas naturais em produção agrícola ou pastagem tem sido a principal causa de perda de habitats e consequente diminuição da biodiversidade.

Os sistemas alimentares mundiais, por sua vez, têm sido moldados, nas últimas décadas, pelo paradigma dos “alimentos mais baratos”. Isto significa que as estruturas económicas e políticas têm procurado produzir o maior número de alimentos ao menor custo possível.

Este paradigma, aparentemente mais lucrativo, dá origem a um círculo vicioso. O custo mais baixo da produção alimentar impulsiona uma maior procura de alimentos que devem, também eles, ser produzidos a um menor custo. Através de uma maior intensificação e de um maior desmatamento de terra, por exemplo.

Foto de: Pnud Comoros | James Stapley

O atual sistema alimentar e as alterações climáticas

A atual produção alimentar depende muito do uso de fertilizantes, pesticidas, energia, terra e água. Além disso, há quem continue a recorrer a práticas pouco sustentáveis como a monocultura. Todos estes fatores acabaram por reduzir a variedade de paisagens e habitats, ameaçando ou destruindo a reprodução, alimentação e/ou nidificação de aves, mamíferos, insetos e organismos microbianos.

No relatório partilhado pela Chatham House é igualmente referido que “o sistema alimentar mundial é um dos principais agentes das alterações climáticas”. Sendo responsável por “cerca de 30% do total das emissões de gases com efeito de estufa produzidas pelo Homem”.

Torna-se assim evidente que “sem uma reforma do sistema alimentar global, a perda de biodiversidade continuará a acelerar e colocará em risco a capacidade de o mundo sustentar a humanidade”.

A mudança dos nossos hábitos alimentares

O processo de reforma do sistema alimentar deve começar pela alteração dos padrões alimentares, defende a Chatham House. Sendo mais específicos, “os hábitos alimentares globais têm de passar a privilegiar dietas mais à base de plantas”. 

A proposta desta ação justifica-se com “o impacto desproporcional da pecuária na biodiversidade, na utilização dos solos e no meio ambiente”. Segundo avança a entidade responsável pelo estudo, “mais de 80% das terras agrícolas globais são utilizadas para a criação de animais, que fornecem somente 18% das calorias consumidas”.

A reversão da tendência para o aumento do consumo de carne removeria a pressão para se limpar novos campos agrícolas e evitaria que a vida selvagem sofresse ainda mais danos. Além de trazer benefícios para a saúde alimentar da população de todo o mundo.

A redução do risco de pandemias e a diminuição significativa do desperdício alimentar global seriam outras das vantagens que resultariam da adoção de uma dieta à base de plantas, assegura a Chatham House.

Foto: Anna Pelzer/Unsplash

Proteger e reservar terras para a natureza

Abordada a questão da mudança dos hábitos alimentares, passamos à segunda ação na qual a reforma do sistema alimentar global se deve concentrar. Ou seja, na proteção de mais terras e na preservação de áreas exclusivamente selvagens.

Em relatório é defendido que “os maiores ganhos para a biodiversidade ocorrerão quando preservarmos ou restaurarmos ecossistemas inteiros”. Isto significa que, “temos que evitar a conversão de terras para a agricultura”, alerta a Chatham House.

Práticas agrícolas mais sustentáveis

A referida disponibilidade de terrenos leva-nos à terceira ação para uma mudança de hábitos alimentares, ou seja: escolher práticas agrícolas mais sustentáveis e que apoiem a biodiversidade. Em termos práticos “isso resulta na substituição da monocultura por práticas agrícolas de policultura e na limitação do uso de fertilizantes e pesticidas”.

O único senão desta proposta é que, em termos gerais, “a agricultura amiga da natureza é menos produtiva do que os métodos convencionais”. A Chatham House chega mesmo a avançar que “as quintas orgânicas, por norma, rendem menos 34% do que as quintas de produção intensiva”.

Todas as ações estão interligados

As três ações que acabámos de apresentar – alteração dos hábitos alimentares, reserva de terra para a biodiversidade (ou manutenção de ecossistemas naturais) e mudança nas práticas agrícolas – estão, de certa forma, interligadas. 

A mudança alimentar é necessária para permitir que a terra seja devolvida à natureza e para permitir também a adoção generalizada de práticas agrícolas sustentáveis sem aumentar a pressão para converter a terra natural em agricultura.

“Quanto mais a primeira ação for tomada sob a forma de mudança alimentar, mais espaço haverá para a segunda e terceira ações”, assegura a Chatham House. 

Algumas opiniões acerca da problemática

Uma das personalidades que colaborou com a Chatham House neste projeto de investigação foi Tim Benton. O professor alega que “os políticos continuam a afirmar que o trabalho deles é conseguir comida mais barata para a sociedade, não importa o quão tóxico isso é para o planeta e para a saúde humana”. No entanto, “seria mais correto deixarmos de argumentar que é necessário subsidiar o sistema alimentar em nome dos pobres e, ao invés disso, lidarmos com esses mesmos pobres tirando-os da pobreza”, defende Benton.

A problemática foi igualmente debatida por Susana Gardner que entende o sistema alimentar como “um pau de dois bicos”. Isto é: “fornece alimentos baratos, mas falha quando não se preocupa com os impactos que isso traz para a nossa saúde e para o mundo natural”. Na perspetiva da diretora da divisão de ecossistemas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente “é urgente, prioritário mesmo, repensarmos a forma como produzimos e consumimos os alimentos”.

No relatório publicado pela Chatham House lemos coisas preocupantes como “desde 1970, o mundo perdeu metade do seu ecossistema natural e a população de animais selvagens diminuiu em 68%”. Será por isso que a conservacionista Jane Goodall não hesita em dizer que “a criação intensiva de biliões de animais danificou gravemente o ambiente”?

Para terminar a apresentação deste estudo, que explora o papel do sistema alimentar global como o principal motor da aceleração da perda de biodiversidade, citemos Philip Lymbery. “O futuro da agricultura deve ser regenerativo e compatível com a natureza, e as nossas dietas devem tornar-se mais saudáveis, sustentáveis e à base de plantas. Se não acabarmos com a agricultura industrial, corremos o risco de não ter qualquer futuro”, alerta o Diretor Executivo Global da World Farming.

Foto de: Banco Mundial/Scott Wallace
Artigo anteriorEmpréstimos europeus para Galp instalar parques solares e carregadores de EV
Próximo artigoCircularidade: qual o papel das marcas na aceleração da transição ambiental?

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of