Marta Vasconcelos
Marta Vasconcelos
Docente e investigadora no Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF) da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa

E o projeto que agora nos entusiasma muito é o RADIANT, do H2020, financiado com 6 milhões de euros, e que irá impulsionar uma rede internacional de parceiros para o desenvolvimento de Cadeias de Valor Dinâmicas para culturas subutilizadas (espécies ou variedades negligenciadas pela agricultura intensiva, conhecidas e utilizadas apenas a nível regional em cada país, mas que possuem um valor nutricional e ambiental muito rico).

Promoção da agrobiodiversidade em prol da sustentabilidade

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A palavra sustentabilidade faz parte do nosso quotidiano e já a tomamos por garantida. Se é certo que, hoje em dia, ser sustentável é um estilo de vida para muitos, o caminho ainda é longo para alcançarmos a desejada (e necessária!) mudança de paradigma.

São muitos os pilares que podem suportar esta mudança, mas acreditamos que uma das principais catapultas para a sustentabilidade é a promoção da agrobiodiversidade.

Esta deve ser ainda aliada ao aumento da produção e consumo de culturas que trazem enormes benefícios ambientais e nutricionais, tais como as leguminosas, e uma mudança nos nossos hábitos alimentares para que estes sejam também mais diversificados, e promovam o consumo local.

Nas últimas décadas, a necessidade de alimentar quase oito mil milhões de pessoas levou a que as práticas agrícolas se focassem na produção intensiva de cinco culturas (o arroz, o milho, a batata, a soja e o trigo) e frequentemente centrada em poucas variedades destas culturas.

As tradições e os conhecimentos antigos foram sendo substituídas por sistemas de monocultura, degradação dos recursos naturais e uso excessivo de insumos agrícolas. O problema é simples: estamos, de facto, a produzir maiores quantidades de calorias, mas estamos a levar ao desgaste dos solos e a oferecer poucas opções de alimentos diversificados produzidos localmente. Nesse sentido, as práticas de agroecologia e a intensificação sustentável têm vindo a ganhar protagonismo.

Bom, mas… não chega

Promover a agrobiodiversidade não é, obviamente, suficiente para tornar a nossa agricultura mais sustentável. As reformas mais recentes na política agrícola comum reconhecem a importância de impulsionar a introdução de medidas “mais verdes” na agricultura, mas a sustentabilidade depende também de fatores como a estabilidade e o acesso a culturas adaptadas a diferentes condições climáticas, a existência de maquinaria de cultivo e / ou processamento adequada e o acesso a apoios financeiros e tecnológicos para a adoção destas práticas. Fatores estes que são de mais inacessíveis a pequenos e médios agricultores, cujas explorações agrícolas são fonte de biodiversidade e sustentabilidade, mas que não têm forma de se ligarem diretamente ao consumidor e de escoar os seus produtos.

E, por isso, modernizar a agricultura, melhorar a formação dos agricultores e introduzir práticas “mais verdes” nas explorações pode não ser suficiente se, no fim, não houver produtividade e rentabilidade.

Sustentabilidade económica é decisiva

Uma das estratégias que pode suportar a mudança é atuar diretamente nas cadeias de valor dos nossos alimentos. A promoção da agrobiodiversidade nas cadeias de valor tem múltiplas vantagens, não só para o agricultor, mas também para o ambiente, para o bem-estar animal e para o consumidor. Introduzir fontes alternativas de nutrientes ou a criação de novas cadeias de valor, torna o nosso sistema agro-alimentar mais dinâmico e diverso, com a principal vantagem de o tornar também mais resiliente a crises climáticas ou de saúde pública.

No Centro de Biotecnologia e Química Fina (CBQF), integrado na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa no Porto, estamos a desenvolver ativamente diferentes abordagens e projetos que nos levam neste caminho.

Alguns exemplos incluem: desenvolver experiências junto dos cidadãos e promover o cultivo de mais de 1000 variedades de feijão por toda a Europa (projeto europeu INCREASE); ajudar os agricultores nacionais a aumentarem o seu conhecimento e a porem em prática a diversidade e rotação de culturas nas suas explorações agrícolas (projeto LeguCon); promover a produção e consumo de leguminosas na Europa, desenvolvendo ferramentas para vários atores das cadeias de valor (projeto europeu TRUE).

RADIANT, um projeto promissor

E o projeto que agora nos entusiasma muito é o RADIANT, do H2020, financiado com 6 milhões de euros, e que irá impulsionar uma rede internacional de parceiros para o desenvolvimento de Cadeias de Valor Dinâmicas para culturas subutilizadas (espécies ou variedades negligenciadas pela agricultura intensiva, conhecidas e utilizadas apenas a nível regional em cada país, mas que possuem um valor nutricional e ambiental muito rico).

O projeto irá envolver, de forma ativa, os diferentes atores (desde os melhoradores das culturas, agricultores, até aos processadores, retalhistas ou consumidores) numa série de atividades experimentais, ensaios de campo, reuniões, para inspirar e testar soluções que ponham em prática o objetivo de diversificar os campos mas também as nossas dietas.  São várias as culturas que irão ser trabalhadas, desde cereais, leguminosas, hortícolas e árvores de fruto, pelo que acreditamos que o projeto possa ser apelativo para um elevado número de cidadãos interessados e que se queiram juntar a nós.

Com estes projetos pretendemos abrir pontes para diálogo e colaboração entre os principais agentes da mudança e promover a adaptação das atuais políticas públicas de reduzir o uso de fertilizantes em 20% e o uso de pesticidas em 50%, promover a descarbonização da agricultura, uma económica mais verde, e para que a sustentabilidade passe a ser mais do que um mero chavão e possamos criar transformações efetivas com valor acrescentado para a população e o planeta.

Foto de destaque por Markus Spiske

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