O Conselho Nacional e Regional Sul do Colégio de Engenharia Naval da Ordem dos Engenheiros organizou esta terça-feira uma conferência em que debateu a descarbonização dos navios, mais concretamente do transporte marítimo.

A conferência, um webinar acompanhado pelo Watts On, juntou diferentes representantes da fileira do transporte marítimo, casos de Pedro Amaral Frazão (Administrador do Grupo Sousa), Jorge Antunes (CEO da Tecnoveritas), Cristina Correia (Diretora de I&D e de inovação da Prio) e Diogo Almeida (Responsável de desenvolvimento do negócio de hidrogénio da Galpenergia).

Transporte marítimo, um tema sensível

A descarbonização do transporte marítimo é um tema crítico, dado que o transporte internacional marítimo é responsável entre 80 a 90% do volume de transações mundiais em peso, algo que dificilmente se alterará, dado que 40% da população mundial vive a menos de 50 km da linha de costa.

E a tendência é para as grandes metrópoles aumentarem a sua população no futuro, algo que será acompanhado do crescimento das trocas comerciais.

Este peso do transporte marítimo a nível planetário traduz-se numa fatura ambiental pesada: os navios respondem por cerca de 3% das emissões globais de Gases de Efeito Estufa (GEE).

As emissões dos navios

Sabia que…
… 90% do comércio mundial é feito via marítima? E que 70% do comércio externo da União Europeia usa também o mar para deslocar as mercadorias? Em termos de comércio intra-EU, a percentagem dos bens e produtos seguem por mar é de 33%.

Olhando apenas para o espaço comunitário, em 2018, as emissões do setor dos transportes marítimos representaram 13,5% das emissões totais de Gases de Efeito de Estufa (GEE) de todos os setores de transportes da UE, das quais mais de um terço das emissões do setor têm origem em navios porta-contentores.

“Apesar de ser o mais eficiente em termos da relação entre a carga transportada e as emissões emitidas, o transporte marítimo seria a sexta nação mais poluidora do mundo, se contabilizarmos todo o CO2 emitido pelos navios”, referiu Pedro Amaral Frazão.

Para demonstrar como as emissões desta atividade “são brutais”, o administrador do armador Grupo Sousa indicou que as emissões de CO2 produzidas pela frota marítima mundial, em 2016, foram de 664 milhões de toneladas e, em 2017, foram de 674 milhões de toneladas.

Foto: Alexandre Gonçalves da Rocha/Pixabay

Cimeira do Clima COP26

O que pode ser feito para o transporte marítimo encurtar a sua pegada de carbono e contribuir para a redução das emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE) é, portanto, um grande desafio e que irá, de resto, motivar a discussão dos especialistas e das grandes empresas do setor no encontro “Shaping the Future of Shipping”, por ocasião da próxima cimeira do Clima, COP26, em Glasgow, em novembro.

Depois de, no webinar, Pedro Amaral Frazão considerar o Biodiesel B15 como “uma alternativa válida para a descarbonização imediata pronta para ser implementada”, Cristina Correia, Diretora de I&D e de inovação da Prio, destacou o trabalho que a energética portuguesa tem desenvolvido, na sua refinaria de Aveiro, visando a descarbonização do transporte marítimo.

Para Cristina Correia, “os biocombustíveis são parte da solução” para o problema da poluição dos navios, entre outras tecnologias energéticas possíveis, caso do Gás Natural ou do hidrogénio, por exemplo.

A responsável da Prio salientou que os biocombustíveis criados em Aveiro pela empresa portuguesa se integram no espírito da economia circular, na medida em que são feitos a partir de resíduos.

Nesse contexto, a empresa colocou no mercado o Biodiesel Eco Bunkers (15% de biodiesel a partir de resíduos) e o Zero Diesel (biocombustível 100% feito a partir de resíduos).

Navios com Eco Bunkers e Zero Diesel

Segundo Cristina Correia, o Eco Bunkers consegue uma redução de emissões de CO2 de 18%, sendo compatível com os motores de tecnologia a gasóleo, o que faz com que “possa ser usado em embarcações já existentes, sem necessidade de adaptação”.

Este carburante Eco Bunkers – acrescentou a investigadora da Prio – gera uma combustão mais limpa, podendo, em certos cenários e dependendo do regime do motor e da carga transportada, levar a uma poupança nos consumos de até 10%.

Foto: Dendoktoor/Pixabay

A Prio, que é o terceiro maior produtor europeu de biocombustíveis a partir de matérias-primas residuais, tem também o mais evoluído Zero Diesel, o qual é capaz de fazer diminuir as emissões de CO2 em 84%. “Trata-se de um combustível 100% renovável, obtido a partir de processos de reciclagem de matérias-primas residuais, tendo também maior propriedade de detergência e sendo também compatível com a tecnologia Diesel”, afirma Cristina Correia.

“Estamos a fazer no transporte marítimo o que fizemos com o transporte rodoviário”, afirma a investigadora da Prio que citou o projeto “Movido a Biodiesel”, iniciativa que juntou a Prio e a Carris, que consistiu no uso de biocombustível (chamado B100) desenvolvido a partir de óleos alimentares usados para mover autocarros, sem que tenha sido preciso transformar a mecânica dos “bus”.

“Acreditamos que o biocombustível permite descarbonizar aqui e agora o transporte marítimo”, diz Cristina Correia.

A esse propósito, Cristina Correia citou o projeto-piloto levado a cabo entre Prio, Administração do Porto de Aveiro e Aveiport, empresa do Grupo ETE, com vista à descarbonização do porto de Aveiro.

Depois de uma primeira fase piloto, durante três meses foi decidido alargar-se o projeto, estando previsto o fornecimento de Ecodiesel pela Prio, a todos os equipamentos motorizados a operar no porto.

Em 2018, a Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês) da ONU adotou uma estratégia inicial em relação aos GEE. O objetivo é reduzir, até 2050, as emissões anuais de GEE geradas pelo transporte marítimo internacional em, pelo menos, 50% face aos níveis de 2008. A estratégia está prevista para ser revista em 2023.

Foto: Jason Goh/Pixabay

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