Susana Bernardino
Susana Bernardino
Investigadora do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente do Politécnico de Leiria

Na União Europeia, 80% a 85% do lixo marinho é constituído por plástico segundo medições realizadas por meio de contagens nas praias, sendo que os artigos de plástico de utilização única representam 50% e os artigos relacionados com a pesca representam 27% do total. Os produtos de plástico de utilização única e as artes de pesca que contêm plástico representam, portanto, um problema particularmente grave no âmbito do lixo marinho.

Do mar para a embalagem e não a embalagem para o mar

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O custo relativamente baixo do plástico e as suas diversas aplicações tornam este material cada vez mais omnipresente no quotidiano. Apesar do plástico desempenhar um papel fundamental na economia e ter aplicações essenciais em muitos setores, principalmente no setor alimentar, a sua crescente utilização em aplicações de curta duração, ou de utilização única, contraria o objetivo de uma economia circular.

A União Europeia (UE) definiu 2030 como data limite para acabar com as embalagens de plástico descartáveis, mudando para plástico reciclável e reutilizável e limitando o uso de microplásticos.  A 3 de Julho entrou em vigor a diretiva da UE, aprovada em 2019 por todos os Estados-membros, que estabelece uma redução dos plásticos de utilização única, tal como cotonetes, talheres e pratos de plástico, entre outros. O Governo Português definiu a data de 1 de Julho de 2021 para implementação da medida de proibição de utilização de plásticos de utilização única.

Na União Europeia, 80% a 85% do lixo marinho é constituído por plástico segundo medições realizadas por meio de contagens nas praias, sendo que os artigos de plástico de utilização única representam 50% e os artigos relacionados com a pesca representam 27% do total. Os produtos de plástico de utilização única e as artes de pesca que contêm plástico representam, portanto, um problema particularmente grave no âmbito do lixo marinho. Estes acarretam um sério risco para os ecossistemas marinhos, a biodiversidade e a saúde humana, e causam prejuízos a atividades como o turismo, as pescas e o transporte marítimo. 

Embalagem de plástico: inimiga número um

A questão do lixo marinho é transfronteiriça por natureza, tendo sido reconhecida como um problema mundial crescente. A redução do lixo marinho é uma ação fundamental para a consecução do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 da ONU, que visa conservar e usar de forma sustentável os oceanos, mares e recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável.

Como resposta a este problema, a redução de lixo marinho do sector alimentar passa pelo desenvolvimento de revestimentos e embalagens alimentares à base de materiais provenientes de fontes renováveis. É o caso dos hidrocolóides, polímeros de hidratos de carbono que na presença de água têm a capacidade de formar dispersões coloidais, de origem biológica e biodegradáveis.

As algas marinhas já são utilizadas pela indústria alimentar como fonte de matéria-prima para estabilizantes ou espessantes e gelificantes como ágar, alginato e carragenina. Nos últimos anos a comunidade científica comprovou o seu potencial como fonte de hidrocolóides biodegradáveis úteis para a produção de revestimentos e embalagens e também dos seus compostos com propriedades bioativas. É o exemplo dos antioxidantes e antimicrobianos que podem ajudar a garantir que os alimentos embalados tenham uma vida útil mais longa. Estas algas podem ser cultivadas, sendo que algumas são espécies invasoras já presentes nos nossos territórios, pelo que a sua utilização não afeta a sustentabilidade dos oceanos. 

Ao desenvolver e utilizar estes produtos como substitutos dos plásticos em embalagens e revestimentos, estaremos a contribuir cada vez mais para libertar o mar das embalagens de plástico, ao mesmo tempo que usufruímos do que o mar nos dá para o substituir. Do mar para a embalagem, e não a embalagem para o mar.

Imagem de destaque por Brian Yurasits

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