Bruno Augusto
Bruno Augusto
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

O aumento da população nas áreas urbanas geralmente leva a um desenvolvimento de uma de duas formas: Cidade compacta, que se caracteriza com uma elevada densidade populacional; ou Cidade dispersa, que se caracteriza por um crescimento indiscriminado para a periferia da cidade, e uma densidade populacional mais reduzida.

Adaptação aos efeitos das alterações climáticas: o Dilema da Cidade Complexa

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As áreas urbanas são responsáveis pela maioria das emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera e também representam uma avassaladora percentagem do consumo de energia a nível global. Infelizmente, ambos estes fenómenos agravam os efeitos das alterações climáticas. Devido à sua morfologia as cidades são, geralmente, mais quentes, poluídas, e chuvosas do que as áreas circundantes e, com o aumento da urbanização que se observa na maioria das cidades Europeias, espera-se que haja um agravamento ainda maior das alterações climáticas, levando a mais ondas de calor, episódios de chuva extrema, decréscimo da qualidade do ar, entre outros.

Esta problemática levanta a questão: Como se deve uma área urbana adaptar para mitigar os efeitos das alterações climáticas?

A forma da cidade

Visto que a forma urbana tem influência no ambiente de uma cidade, uma das maneiras de alterar certas consequências negativas causadas pelas alterações climáticas é mudar a forma da cidade.

O aumento da população nas áreas urbanas geralmente leva a um desenvolvimento de uma de duas formas: Cidade compacta, que se caracteriza com uma elevada densidade populacional; ou Cidade dispersa, que se caracteriza por um crescimento indiscriminado para a periferia da cidade, e uma densidade populacional mais reduzida. Sendo assim, é apenas necessário entender qual das formas é mais conducente a uma melhor adaptação às alterações climáticas e direcionar as devidas políticas de urbanização para a cidade ser ou compacta ou dispersa… certo? Infelizmente não.

Para o descontentamento dos cidadãos, dos decisores políticos e planeadores urbanos, uma área urbana é um sistema muito complexo, composto de variadas partes que reagem de formas opostas a alterações na forma da cidade.

Uma escolha difícil

Passando a exemplos, digamos que numa cidade compacta as pessoas percorrem distâncias mais curtas nas suas deslocações para o trabalho pois vivem mais perto dos centros urbanos onde estão os seus empregos. Para além disso, as redes de transportes públicos tendem a ser melhores em cidades compactas.

Isto leva a que as emissões de poluentes referentes aos transportes sejam mais reduzidas, no entanto como a densidade populacional é mais elevada (comparativamente a uma cidade dispersa) as pessoas estão mais expostas aos poluentes. Sendo assim, o que é melhor: menos emissões de poluentes para a atmosfera que irão aumentar o efeito de alterações climáticas, ou a redução da concentração de poluentes a que as pessoas estão expostas?

Para um exemplo mais complexo, suponhamos que há uma cidade com tendência a crescer de forma dispersa (na verdade, a maioria das cidades apresenta esta tendência). Graças a isso, ocorre uma perda de campos agrícolas na periferia da cidade e de outros espaços florestais, sendo estes trocados por áreas impermeáveis, que causam problemas de cheias, aumentos de temperatura e claro, perdas de biodiversidade.

A importância dos espaços verdes

Para impedir a cidade de se tornar mais dispersa, são implementados parques e outros espaços verdes perto dos centros urbanos da cidade. Estes espaços, muitas vezes apresentados como “Soluções baseadas na natureza” apresentam múltiplos benefícios como: redução de temperatura; mitigação de cheias; melhoria do bem-estar psicológico; entre muitos outros. Outro benefício que têm, e neste exemplo o grande objetivo, é atrair pessoas para junto das zonas verdes, o que é um efeito comprovado.

Estas pessoas são atraídas das zonas periféricas da cidade para os centros, contrariando assim o efeito de dispersão da cidade e tornando-a compacta. No entanto, isto resulta num aumento da densidade populacional nas zonas de implementação, o que leva a um aumento de temperaturas devido às atividades humanas.

Este aumento de temperaturas (que já são exacerbado nas cidades devido à sua morfologia) leva ao aumento da utilização de energia para ar-condicionado, o que vai aumentar as emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera, agravando ainda mais os efeitos das alterações climáticas. Tendo esta cascata de efeitos em conta, será que vale a pena contrariar a evolução da dispersão da cidade? Certamente há vantagens para alguns parâmetros mas também é certo que há desvantagens para outros.

Para concluir: as áreas urbanas são extremamente complexas, e encontrar a melhor forma de as adaptar às alterações climáticas é um balanço entre vantagens e desvantagens. A única questão é descobrir que parâmetros devem ser mais valorizados.

Foto de destaque de Michael Martinelli

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