Carlos M. Alexandre
Carlos M. Alexandre
Investigador da Universidade de Évora/MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente

As barragens têm impactos nocivos nos ecossistemas aquáticos, que nem sempre são suficientemente estudados ou mitigados. Para além do efeito de barreira à migração dos peixes, as barragens são responsáveis pela artificialização do regime de caudais dos rios onde são construídas. Podem levar a alterações hidromorfológicas no habitat fluvial e, consequentemente, causam vários impactos no biota aquático.

Ecorregularização: por uma gestão mais ecológica das nossas barragens

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Não sou contra a construção de barragens. É certo que a quantidade e o ritmo a que são construídas é claramente desproporcional à dimensão do país, os locais selecionados nem sempre são os mais adequados, e o seu custo-benefício (comparando os ganhos económicos com as perdas ambientais) nem sempre é corretamente avaliado. Mas as barragens desempenham um papel fundamental para a população humana, sobretudo num contexto de transição entre os combustíveis fósseis e as energias renováveis.

No entanto, sabe-se que as barragens têm impactos nocivos nos ecossistemas aquáticos, que nem sempre são suficientemente estudados ou mitigados. Para além do efeito de barreira à migração dos peixes, as barragens são responsáveis pela artificialização do regime de caudais dos rios onde são construídas. Podem levar a alterações hidromorfológicas no habitat fluvial e, consequentemente, causam vários impactos no biota aquático. 

Se pensarmos nas alterações que as barragens podem ter nas comunidades piscícolas, que para as populações humanas são o elemento mais visível e explorado destes ecossistemas, facilmente percebemos o impacto que a sua construção e operação podem ter. Impacto nos bens e serviços associados a este grupo biológico, nas suas componentes socioeconómicas (pesca comercial), culturais (pesca recreativa) e de biodiversidade, que levam a consequentes perdas económicas e sociais para as regiões mais afetadas. 

Ecorregularização permite o equilíbrio

É pouco provável que as principais barragens sejam removidas apenas com a finalidade de conservar as populações piscícolas nativas e beneficiar os bens e serviços do ecossistema associados a estas espécies. Desta forma, é provável que a melhor solução para este problema seja a compatibilização dos interesses económicos associados à produção hidroelétrica com a manutenção da integridade dos ecossistemas aquáticos, numa abordagem de Ecorregularização dos cursos de água modificados. 

Esta Ecorregularização poderá ser conseguida através da implementação de modelos de gestão e funcionamento das barragens, e das respetivas descargas regularizadas de caudal, que beneficiem as espécies de peixes nativos com interesse socioeconómico, cultural e conservacionista, e reduzam a abundância e proliferação das espécies não-indígenas. 

Não será, porventura, um objetivo de fácil concretização, sobretudo em zonas onde o recurso “água” é escasso, como é o caso da região mediterrânica. Exige um grande compromisso e capacidade de compatibilização com as entidades que gerem estes aproveitamentos hidroelétricos e, sobretudo, a realização de estudos técnicos e científicos que permitam colmatar as lacunas de informação existentes.

É preciso identificar claramente a natureza das relações entre a biologia e ecologia das espécies-alvo e a variabilidade do meio envolvente. E, posteriormente, definir quais os valores ótimos e limitantes de caudal que devem ser implementados para promover os bens e serviços destes ecossistemas. Mas se o conseguirmos, então o futuro destes ecossistemas aquáticos, das espécies que neles habitam, bem como a sustentabilidade dos usos humanos que lhes estão associados, estarão mais perto de ser assegurados.

Foto de destaque por Tejj

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