Camille Richard
Camille Richard
Corporate and Social Responsibility Manager do Back Market, plataforma dedicada a produtos recondicionados

É essencial que fabricantes trabalhem cada vez mais para uma maior reparabilidade dos dispositivos, assim como a recolha dos aparelhos e a disponibilidade das peças de reposição. Além dos fabricantes, também os decisores políticos desempenham um papel importante em promover estes novos hábitos, criando medidas que incluam a reabilitação dos produtos como solução às alterações climáticas.

Impacto do lixo tecnológico: solução está na economia circular

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O mundo digital representa quase 4% das emissões globais de carbono e o grande impacto da tecnologia na quantidade de lixo produzido prende-se com a produção de dispositivos. Estima-se que, em 2040, a tecnologia de comunicação seja responsável por 14% do carbono emitido para a atmosfera. Esta época digital tem trazido algumas consequências dramáticas, como as emissões de carbono, a extração de matéria-prima, tal como o lítio, o consumo de água e ainda a quantidade e velocidade de produção de lixo tecnológico. 

Segundo o Global E-Waste Monitor 2020, por ano, são geradas mais de 50 milhões de toneladas de lixo eletrónico no mundo, que representam 7,3kg por pessoa. Desde 2014, a produção deste tipo de resíduos aumentou mais de 9 milhões de toneladas e perspetiva-se que, em 2030, sejam produzidas mais de 70 milhões de toneladas de lixo tecnológico. 

Este lixo, produzido em grande escala e não reciclado, simboliza um elevado risco para a saúde quer das pessoas quer do meio ambiente, dada a presença de aditivos tóxicos ou substâncias perigosas como o mercúrio. É estimado que, anualmente, estejam nos resíduos tecnológicos cerca de 50 toneladas de mercúrio, usado em diversos dispositivos tecnológicos, como por exemplo em monitores.

O curto ciclo de vida dos dispositivos 

Esta tendência de aumento da quantidade de lixo tecnológico produzido deve-se, essencialmente, à rotina de compra dos utilizadores, aos ciclos de vida curtos dos dispositivos e ainda às poucas opções de reparo dos materiais. É comum proprietários atualizarem o smartphone que têm a cada dois anos, sendo que, todos os dias, e contabilizando apenas nos Estados Unidos da América, são deitados para o lixo mais de 400 mil telemóveis, sendo que menos de 20% dos smartphones vendidos conseguem ganhar outra vida através da reciclagem. 

Se analisarmos os recursos necessários para fazer um só smartphone, percebemos que existem diversos recursos extraídos do meio ambiente como o lítio, o tântalo e o cobalto, o que intensifica a pegada global em 18m2 de solo, 12.760 litros de água e, se falarmos do iPhone 11, 60 kg de emissões de carbono. Isto significa que, se num duche gastarmos 15 litros de água, podemos tomar 850 duches para a produção de um único smartphone. Além disso, e segundo a Apple, produzir um novo iPhone 11 representa 79% a 95% do total de CO2 emitido pelo aparelho ao longo de dois anos da sua vida, dada a extração dos materiais raros que compõe o seu interior. 

A necessidade da mudança nos hábitos de consumo

A atenção dos governos em relação a este assunto tem aumentado, dada a cada vez maior valorização de temas ligados à sustentabilidade e da importância da adoção de hábitos que não prejudiquem tanto o ambiente. No entanto, na prática, as previsões em relação ao futuro ainda se mostram muito negativas, pelo que é necessário agir, mudando os hábitos de consumo da sociedade. 

No Back Market, é exatamente essa a nossa missão – incentivar a um mais consciente e sustentável consumo de dispositivos eletrónicos. Isto através dos produtos recondicionados, que dizem respeito a aparelhos usados de séries profissionais, geralmente provenientes de leasings e rentings de grandes empresas como bancos ou seguradoras, e que se apresentam como uma solução de muito impacto para reduzir o consumo. Sempre que alguém escolhe um smartphone recondicionado ao invés de optar por um novo, isso contribui para evitar 30 kg de CO2. 

Neste sentido, apoiar a mudança necessária nos hábitos de consumo é uma das nossas primeiras missões. Para ser uma missão bem conseguida, primeiro, tem de perceberse quais as razões que mais atraem os consumidores: e neste campo, o primeiro motivador da compra é o preço. Um dispositivo recondicionado é de 30 a 70% mais barato que um novo. Além disso, e para continuar a incentivar que os consumidores queiram cada vez mais fazer a diferença em termos de pegada ecológica, é importante que sejam informados do impacto real que as suas compras têm no planeta. 

Mudar hábitos não é uma tarefa fácil e não pode ser apenas uma responsabilidade do consumidor – toda a cadeia de valor tem de participar. É essencial que fabricantes trabalhem cada vez mais para uma maior reparabilidade dos dispositivos, assim como a recolha dos aparelhos e a disponibilidade das peças de reposição. Além dos fabricantes, também os decisores políticos desempenham um papel importante em promover estes novos hábitos, criando medidas que incluam a reabilitação dos produtos como solução às alterações climáticas.

Para o ambiente, o presente e o futuro são preocupantes. No entanto, se todos fizermos a nossa parte e optarmos por alternativas mais sustentáveis e não prejudiciais ambientalmente, conseguiremos mudar esse paradigma. A economia circular é uma das soluções mais eficientes e, por isso, no futuro, deverá passar de alternativa a primeira opção quando se trata de comprar tecnologia.

Foto de destaque por Alphacolor

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