Maria João Feio
Maria João Feio
Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, Universidade de Coimbra - MARE (UCoimbra)

Assiste-se todos os dias ao aumento da degradação dos rios portugueses, sendo que quase metade das nossas massas de água não atinge o bom estado ecológico. Esta degradação tem as mais variadas origens, sendo a poluição da água a que recebe mais atenção da comunicação social e das populações. No entanto existem outras causas tão ou mais importantes, tal como os açudes e barragens que constituem barreiras à passagem da água e espécies ao longo do rio e que contribuem também para a deterioração da qualidade da água

Rios portugueses: um ecossistema fundamental a preservar

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Os rios ocupam menos de 1% da superfície da Terra, mas suportam mais de 10% das espécies conhecidas. Os rios portugueses estão protegidos por diversas leis como a Lei da Água e a Diretiva Europeia Quadro da Água, a Lei de conservação da Natureza e Biodiversidade ou a Lei da Reserva Ecológica Nacional. Proteger e recuperar os ecossistemas ribeirinhos faz parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas para 2030.

No entanto, assiste-se todos os dias ao aumento da degradação dos rios portugueses, sendo que quase metade das nossas massas de água não atinge o bom estado ecológico.

Esta degradação tem as mais variadas origens, sendo a poluição da água a que recebe mais atenção da comunicação social e das populações. No entanto existem outras causas tão ou mais importantes, tal como os açudes e barragens que constituem barreiras à passagem da água e espécies ao longo do rio e que contribuem também para a deterioração da qualidade da água. Estas impedem por exemplo, a deslocação de espécies de peixes migradores ao longo do rio, como a lampreia, as enguias ou o sável, que são assim impedidas de cumprir os seus ciclos de vida.

As espécies exóticas e invasoras causam também um grande impacto nos rios portugueses, tendo sido identificadas306 espécies exóticas nas águas interiores ibéricas que competem com as nossas por espaço, alimento e refúgio. 

Proteção da vegetação ripícola

A alteração da vegetação ribeirinha (ripícola) é também uma das maiores ameaças ao funcionamento e biodiversidade dos nossos rios. Existem cerca de 100 espécies em Portugal, entre as quais amieiros, bétulas, choupos, freixos, salgueiros, ulmeiros, e trepadeiras, como as madressilvas, heras, videiras silvestres, e silvas. 

Mas embora protegida por lei (é obrigatório manter 10 a 50 m de largura em cada margem, dependendo do tamanho do rio), assiste-se continuamente a cortes da vegetação ripícola no país, de forma a obter mais espaço para construção ou terrenos agrícolas. Estes cortes são acompanhados pela rápida expansão de espécies oportunistas, como as acácias ou as canas (Arundo donax), e até por eucaliptos, levando à perda inevitável de funções da vegetação ribeirinha. 

Além da sua riqueza florística, a vegetação ripícola suporta uma vasta diversidade de outras espécies. No caso das aves, encontramos aqui, o rouxinol-bravo, o chapim-real, o chapim-azul, a trepadeira-comum, o guarda-rios, o pica-pau-malhado-grande; espécies migradoras como a toutinegra-de-barrete, o rouxinol, o felosa-poliglota e o papa-figos; as garças e as galinha-de-água; e milhafres que nidificam nas copas altas das árvores à beira de rios.Também os invertebrados aquáticos, entre os quais libelinhas e libélulas, os tricópteros, as efémeras, ou os plecópteros, dependem diretamente da vegetação ripícola, alimentando-se de folhas, escavando galerias em ramos e troncos caídos, refugiando-se nas raízes submersas ou fixando-se nas folhas das plantas aquáticas.

E servem depois de alimento para aves, peixes e anfíbios ou répteis. Alguns insetos aquáticos necessitam ainda da vegetação ripícola na fase adulta para se protegerem e reproduzirem. Nas margens dos rios encontramos ainda outros animais como a lontra e o rato-de-água, répteis e anfíbios como o tritão-de-ventre-laranja, a salamandra-de-pintas-amarelas, a rela e outros sapos e rãs. 

A vegetação ripícola proporciona ainda importantes serviços às populações humanas, como a regulação do clima e mitigação de extremos de temperatura, a melhoria da qualidade do ar, dos solos e da água, a regulação das cheias e estabilização das margens. E são zonas ideais promover o exercício físico ao ar livre e a relação com a natureza.   

Por tudo isto, é urgente que em Portugal se passe a fazer uma gestão integradora e sustentável dos rios e da sua vegetação ripária, considerando-os como ecossistemas vitais para o homem e outros seres vivos, tanto em áreas urbanas como rurais ou florestais.

Referências

Oliva-Paterna FJ et al. 2021. LISTA DE ESPÉCIES EXÓTICAS AQUÁTICAS DA PENÍNSULA IBÉRICA (2020). Lista atualizada das espécies exóticas aquáticas introduzidas e estabelecidas nas águas interiores ibéricas. Relatório técnico elaborado pela equipa do projeto LIFE INVASAQUA (LIFE17 GIE/ES/000515). 64 pp
– Feio MJ, et al. 2021. The biological assessment and rehabilitation of the world’s rivers: an overview. In Special issue The Ecological Assessment of Rivers and Estuaries: Present and Future. Water 2021, 13, 371. https://doi.org/10.3390/w13030371
– Ranta E, et al. 2021 Urban stream Assessment system (UsAs): an integrative tool to assess biodiversity, ecosystem functions and services. Ecological Indicators 121: 106980 https://doi.org/10.1016/j.ecolind.2020.106980 
Aguiar et al. 2019 Pantas Aquáticas. In: Rios de Portugal. Comunidades, Processos e Alterações (eds: Feio MJ & Ferreira V). Imprensa da Universidade de Coimbra. Pp 123-146pp
– Rebelo et al. 2019. Anfíbios e répteis. In: Rios de Portugal. Comunidades, Processos e Alterações (eds: Feio MJ & Ferreira V). Imprensa da Universidade de Coimbra. Pp 203-231
– Ramos et al. 2019. Aves. In: Rios de Portugal. Comunidades, Processos e Alterações (eds: Feio MJ & Ferreira V). Imprensa da Universidade de Coimbra. Pp 233-249

Agradecimentos

A autora agradece os contributos dos colegas Verónica Ferreira, Miguel Araújo, Jael Palhas, Anabela Mariza Azul e Alexandra Aragão

Foto de destaque de Maksym Kaharlytskyi

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