Hélder Relvas
Hélder Relvas
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Não devemos pensar nesta pandemia numa relação custo-benefício, pois ela terá um custo muito elevado a nível da saúde, mas também económico e social. Mas, ao falar sobre as vidas salvas devido a um ar mais limpo, espero que se possa aumentar a conscientização sobre os efeitos da poluição do ar, assim que o vírus for contido. Talvez surja alguma mudança de mentalidade, e se criem novos hábitos, mais amigos do ambiente. Enquanto o coronavírus tem efeitos quase imediatos, a poluição atmosférica é considerada um “um assassino silencioso”, pois os efeitos são muitas vezes sentidos anos mais tarde, através de problemas respiratórios e cardiovasculares.

Redução da exposição à poluição atmosférica durante a pandemia COVID-19

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A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a exposição à poluição do ar mate 4,2 milhões de pessoas por ano. Em Portugal, o último relatório Europeu sobre poluição atmosférica “Air quality in Europe – 2020” estima em cerca de 6000 as mortes prematuras por ano, sendo a grande maioria destas causada pela exposição à poluição atmosférica, em particular, à matéria particulada.

A pandemia COVID-19, e as subsequentes medias de confinamento, vieram provocar um decréscimo das emissões de diversos poluentes atmosféricos, resultando numa melhora geral da qualidade do ar a nível Europeu, e em particular em Portugal.

O estudo “The impact of COVID-19 on air quality levels in Portugal: A way to assess traffic contribution” mostra o efeito da pandemia na poluição atmosférica em Portugal.

Foram comparados os dados das concentrações médias horárias de NO2 (dióxido de azoto) e PM10 (matéria particulada) de mais de 20 estações de monitorização espalhadas por Portugal Continental, medidos durante o primeiro período de restrição de circulação dos cidadãos (Março – Maio de 2020), com dados da média dos cinco anos anteriores (março – maio de 2015 a 2019). 

Redução média muito significativa da poluição atmosférica

Foi observada uma redução média de 41% das concentrações NO2 e de 18% para PM10. Para o NO2, as reduções médias foram mais significativas nas estações de tráfego (atingindo valores superiores a 60% em algumas estações de monitoramento), e em algumas estações urbanas de fundo, do que em estações rurais. 

Esta melhoria da qualidade do ar deve-se, sobretudo, a uma forte redução da circulação automóvel nas áreas urbanas. A diminuição da atividade industrial, e um forte abrandamento do turismo também contribuíram para esta melhoria. O turismo é muito relevante a nível económico e, está também ligado a emissões de poluentes, nomeadamente ao nível dos transportes, mas também a nível da restauração e alojamento.

Disparidades entre regiões de Lisboa e Algarve

O estudo “Tourism and Air Quality during COVID-19 Pandemic: Lessons for the Future”, publicado no início de abril, no âmbito do projeto de investigação ARTUR, focou-se no período entre janeiro e setembro de 2020, nas regiões de Lisboa e do Algarve (dois dos principais destinos turísticos portugueses). Ele aponta melhorias significativas na qualidade no ar, principalmente a partir de abril, em comparação com os níveis dos cinco anos anteriores. Em Lisboa houve uma redução de 47% do NO2; já ao nível das partículas, registou-se uma quebra de aproximadamente 40%. No mesmo período, no Algarve, região com ligações mais profundas ao setor do turismo, a quebra de emissões de dióxido de azoto chegou aos 60%, mas ao nível das partículas foi apenas de 27%. Esta redução mais acentuada em Lisboa do que no Algarve deve-se ao transporte de poeiras de origem natural, do norte de África, que afetam muito mais o Algarve que a zona de Lisboa.

Os resultados em termos de benefício na saúde mostram que, considerando ambos os poluentes, 14 mortes prematuras foram evitadas devido às reduções de PM2.5 e NO2, entre janeiro e setembro de 2020. Apenas a mortalidade foi usada como indicador, mas uma ampla gama de morbidades está associada à exposição à poluição do ar. Alem disso, os cálculos foram feitos considerando apenas o benefício na saúde de curto prazo, pelo que se os níveis se mantivessem assim durante muito tempo os benefícios seriam muito mais elevados. Infelizmente, os dados mostram que durante o verão de 2020 os valores de poluição atmosférica voltaram a ser idênticos aos registados nos anos anteriores, e em alguns casos até superiores. 

Não devemos pensar nesta pandemia numa relação custo-benefício, pois ela terá um custo muito elevado a nível da saúde, mas também económico e social. Mas, ao falar sobre as vidas salvas devido a um ar mais limpo, espero que se possa aumentar a conscientização sobre os efeitos da poluição do ar, assim que o vírus for contido.

Talvez surja alguma mudança de mentalidade, e se criem novos hábitos, mais amigos do ambiente. Enquanto o coronavírus tem efeitos quase imediatos, a poluição atmosférica é considerada um “um assassino silencioso”, pois os efeitos são muitas vezes sentidos anos mais tarde, através de problemas respiratórios e cardiovasculares. 

Para além de Hélder Relvas, também participaram nestes estudos os investigadores do CESAM Myriam Lopes, Carla Gama, Alexandra Monteiro, Carlos Borrego, Michael Russo, Kevin Oliveira e Investigadores do GOVCOOP.

Foto de destaque por Daniel van den Berg

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