Filipa Saldanha
Filipa Saldanha
Economista e Subdiretora do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Sustentável

O estudo “O Uso da Água em Portugal” retrata o setor agrícola em Portugal e assinala a urgência de uma gestão mais eficiente e sustentável daquele recurso. Num cenário de escassez de água, as consequências são de alarme para a produção agrícola nacional, com efeitos graves no grau de autossuficiência alimentar de Portugal, e arrastando prejuízos ao nível do equilíbrio da balança comercial, no emprego e na produtividade da economia portuguesa.

A água: denominador comum da crise climática e da agricultura

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Hoje celebramos o Dia Mundial da Água. Nas escolas multiplicam-se as mensagens sobre a sua importância para a vida e as sugestões para a sua poupança, onde reinam os duches curtos, as torneiras fechadas e umas quantas inovações domésticas. Instala-se uma cultura passageira da água em Portugal. Até à próxima seca, pouco se ouve falar do assunto.  

No desassossego de um presente onde há muito por fazer, valha-nos um passado de conhecimento e um banco de memórias que nos permite traçar cenários de futuro.

Nas últimas décadas, os padrões climáticos em Portugal não deixam margem para dúvidas. A temperatura tem vindo a aumentar e as secas têm sido mais severas e mais prolongadas, especialmente no Sul do País.

Não é de estranhar que o futuro também não seja promissor. Portugal é hoje um dos países com elevado stress hídrico até 2040. Isto significa que enfrentamos um risco elevado de ter de gerir pouca água face às necessidades do País durante os próximos 20 anos.

Setor agrícola é decisivo

Um trabalho sério sobre a problemática da água em Portugal implica ir além dos consumos urbanos e da indústria. Num País de clima mediterrânico, com necessidades de rega acentuadas, é imperativo abordar o setor que mais contribui para a utilização de água e dos que mais sofrerá neste cenário alarmante — o setor agrícola, que é responsável por 75% do total de água utilizado. 

Estas foram as motivações da Fundação Calouste Gulbenkian, estando onde tem de estar, como diria a sua Presidente, pelos de hoje e pelos do futuro.

O estudo “O Uso da Água em Portugal” retrata o setor agrícola em Portugal e assinala a urgência de uma gestão mais eficiente e sustentável daquele recurso.  Num cenário de escassez de água, as consequências são de alarme para a produção agrícola nacional, com efeitos graves no grau de autossuficiência alimentar de Portugal, e arrastando prejuízos ao nível do equilíbrio da balança comercial, no emprego e na produtividade da economia portuguesa. 

Os agricultores são, de facto, os primeiros interessados em encontrar soluções.  A investigação concluiu que 53% dos agricultores portugueses (64% no Alentejo e 71% no Algarve) sentem que há menos água disponível e identificam a falta de água como uma das principais preocupações no futuro próximo. 

Medir o uso da água é essencial

No primeiro passo para a mudança, é importante garantir que se mede a água que se utiliza e, à data, a medição rigorosa da rega ainda não é caracterizadora do setor. Com base no inquérito efetuado a cerca de 500 agricultores de regadio que comercializam a sua produção, sabemos que a esmagadora maioria (71%) não tem contador de água nas suas explorações. Sendo essencial quantificar a água que se utiliza, a transição para uma rega mais precisa e eficiente depende, acima de tudo, da adoção de tecnologias inovadoras.  

Foi particularmente positivo constatar que 85% dos agricultores que integram novas tecnologias na sua atividade não têm dúvidas de que poupam uma elevada quantidade de água, com poupanças que também abrangem fatores indiretos como a energia ou os fertilizantes.  A inovação tecnológica na agricultura, a chamada AgriTech, tem ganhos significativos no uso mais eficiente de água, permitindo controlar com precisão as necessidades de água em tempo real. 

A transição para esta nova forma de fazer agricultura exige apoio e demonstração num contexto de proximidade. Não existe um formato único nem que sirva todos os perfis de agricultores. Uma das grandes riquezas desta investigação é que estrutura e caracteriza quatro perfis de agricultor, ajudando a compreender o que motiva os diferentes perfis. Ajustar a capacitação à escala, à cultura e ao contexto desses agricultores revela-se fundamental para acelerar a mudança. 

É este o caminho que a Fundação Calouste Gulbenkian pretende percorrer, num esforço conjunto com toda a cadeia de valor agroalimentar.  No próximo Dia Mundial da Água, esperamos ter mais histórias para contar, faça chuva ou faça sol.

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