Michael Russo
Michael Russo
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Todo o período da pandemia foi, e continua a ser, de difícil adaptação para toda a sociedade. No entanto, podemos retirar algumas lições ao analisar os dados de 2020 e como o consumo energético evoluiu ao longo do ano. Medidas de eficiência energética não estão limitadas a melhorias tecnológicas ou em processos, podendo também incluir alterações nos comportamentos dos cidadãos.

Qual é o impacto da pandemia no consumo de eletricidade?

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Nos últimos anos, o consumo energético e intensidade carbónica têm sido pontos centrais de discussão na União Europeia. A ciência é clara, a atividade humana impacta o clima, o que leva a uma intensificação do aquecimento global e eventos climáticos extremos. De todos os setores que contribuem para as emissões de CO2, a produção de energia é o mais significativo [1]. As metas da União Europeia para 2050, reforçadas pelo Acordo de Paris [2], são uma resposta direta a esta realidade. O objetivo é a redução das nossas emissões para a atmosfera e a descarbonização do setor de produção de energia, numa tentativa da redução do nosso impacto no ambiente e manter a subida global de temperatura abaixo dos 2ºC. Neste momento uma das maiores preocupações é se os objetivos atuais serão suficientes para atingir as metas definidas para 2050. O certo é que a nossa utilização dos sistemas energéticos, bem como formas eficientes e inovadoras de os usar, irá ter um papel central na nossa capacidade de cumprir estes objetivos.

No dia 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde reportou o aparecimento de um novo vírus, COVID-19, em Wuhan na China [3]. Três meses depois, a 11 de março 2020, a OMS declarou o surto global do vírus uma pandemia, com mais 100.000 casos confirmados e 4000 mortes. Nos meses seguintes, a pandemia causou uma mudança no dia-a-dia de toda a sociedade, com fortes impactos na indústria, na economia e no ambiente. No entanto, podemos retirar algumas conclusões desta nova realidade que nos podem ser úteis a definir o nosso futuro, e talvez um futuro mais sustentável. Para isso, podemos fazer uma breve análise dos dados do consumo diário de eletricidade para Portugal em 2020, e comparar com o ano anterior.

Consumo diário nacional de energia elétrica para 2020 (linha azul) e 2019 (linha laranja), para os períodos de pré-confinamento, confinamento, desconfinamento e medidas adicionais [4].

Alterações no Consumo da eletricidade

Em Portugal, no início de 2020 (período de pré-confinamento), o consumo de energia elétrica foi 2,3% mais elevado do que o mesmo período em 2019. Uma vez decretado o estado de emergência e ordem de confinamento, registou-se uma diminuição média no consumo de eletricidade de 13,4%, sendo que a maior diferença ocorreu durante os dias úteis. Já nos dias antes do confinamento há uma ligeira diminuição no consumo, o que poderá ser devido a algumas instituições e empresas ter apelado ao confinamento antecipado dos seus trabalhadores. Durante o desconfinamento, o consumo de energia voltou a valores similares a 2019, no entanto, o consumo médio de energia neste período foi 3,1% menor em 2020 devido ao desconfinamento ser feito em três fases. Finalmente, com o natal e a o fim do ano a chegar, houve um conjunto de medidas adicionais para tentar mitigar infeções durante estes dois períodos de grande mobilidade da população, que resultou numa diminuição de consumo de 2% comparado com 2019. 

Lições para o futuro

Estes dados revelam o significativo impacto da redução de mobilidade e do teletrabalho no consumo energético de um país, porém, é um exemplo extremo que viu parte da população a encerrar os seus negócios e aumento de desemprego. Todo o período da pandemia foi, e continua a ser, de difícil adaptação para toda a sociedade. No entanto, podemos retirar algumas lições ao analisar os dados de 2020 e como o consumo energético evoluiu ao longo do ano. Medidas de eficiência energética não estão limitadas a melhorias tecnológicas ou em processos, podendo também incluir alterações nos comportamentos dos cidadãos. Neste caso, podemos analisar como é que o teletrabalho pode ser uma medida eficaz de eficiência energética, para nos ajudar a atingir os objetivos de redução de consumo de eletricidade e descarbonização das fontes de energia elétrica. Um bom exemplo seria o final de 2020, onde o objetivo das novas medidas foi adotar o teletrabalho quando possível, mantendo os serviços a funcionar a 100%, de forma a reduzir mobilidade desnecessária da população. Essas medidas resultaram numa diminuição de consumo de 2%, um valor que pode parecer baixo, mas que é significativo quando se considera o panorama energético de Portugal e as nossas metas nacionais.

[1] – IEA, Global CO2 emissions by sector, 2018, IEA, Paris
[2] – C. From et al., “A Clean Planet for all A European strategic long-term vision for a prosperous, modern, competitive and climate neutral economy,” pp. 1–25, 2018.
[3] – W. H. O. (WHO), “Interactive COVID-19 Timeline,” 2020. [Online].
[4] – REN Centro de Informação, Estatísticas Diárias. Estatística Diária (ren.pt)

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