Luis Correia
Luis Correia
Investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA)

Começam a surgir cada vez mais estudos que confirmam a premissa de que o menor consumo dos processos eletrificados permitem a rentabilidade dos mesmos.

A Eletrificação da Indústria: uma mudança de paradigma

0
1495

Desde 1990 que o consumo energético mundial tem seguido uma tendência de crescimento. De todas as formas possíveis de utilização da energia, a grande fatia continua a pertencer aos combustíveis de origem fóssil, com o petróleo em primeiro lugar (32%), seguido do carvão (27%) e do gás natural (22%). Apenas 9% da energia consumida em todos os sectores é utilizada na forma de energia elétrica.

Num futuro em que se prevê como necessária uma descarbonização intensiva e uma independência dos combustíveis fósseis, denota-se que, de forma global, o consumidor final de energia não está de todo preparado para o fornecimento quase exclusivamente elétrico resultante das energias renováveis.

Decréscimo de consumo industrial

Na Europa, a indústria tem sido um dos sectores com maior consumo energético, atrás do setor dos transportes e a par do setor residencial. Desde 2007 que o consumo energético na indústria europeia tem vindo a diminuir, ficando com um consumo inferior ao do sector residencial em 2015. O cenário de eletrificação da indústria europeia é mais animador, uma vez que a taxa de utilização de energia elétrica é de 32%, aproximadamente a mesma do gás natural, aumentando 4 pontos percentuais desde o ano 2000. Contudo, apenas 10% deste aumento se deveu à eletrificação da indústria, com a substituição de processos que utilizam combustíveis fósseis, por processos que utilizem energia elétrica.

A eletrificação da indústria, principalmente processos de aquecimento, é muitas vezes interpretada como uma solução que gerará mais despesa para as empresas, dado o custo mais elevado da aquisição de energia na forma de eletricidade. No entanto, dependendo da aplicação, os processos de aquecimento que recorram à energia elétrica são mais eficientes, promovendo assim uma diminuição do consumo energético global, possibilitando uma aplicação rentável.

De facto, identificar e projetar um processo eletrificado que dê resultados tão bons ou melhores do que os de um processo que recorra a combustíveis fósseis é um desafio. É então necessária uma abertura por parte da indústria para colaborar com as comunidades académicas e de investigação científica para que tais projetos possam ser desenvolvidos, contribuindo com passos firmes e racionais no caminho para um futuro sustentável de neutralidade carbónica. A indústria deve consciencializar-se de que a utilização massificada de combustíveis fósseis no seu sector é um problema que tem de ser resolvido, e que a comunidade científica é o meio com as ferramentas necessárias para atingir o fim de forma eficiente.

Enganem-se aqueles que, à priori, rejeitam a eletrificação dos processos por “serem caros e não trazerem melhoria nenhuma”. Começam a surgir cada vez mais estudos que confirmam a premissa de que o menor consumo dos processos eletrificados permitem a rentabilidade dos mesmos. Esses mesmos estudos indicam também que em certas indústrias, nomeadamente na indústria do vidro, a eletrificação de certos processos traz vantagens na produtividade, eficiência do processo produtivo e na redução de desperdício de matérias primas. Um sem fim de vantagens que só são equacionadas com uma abordagem pensada, estruturada e sem preconceitos.

A eletrificação dos processos industriais não é o caminho mais fácil. Mas é sem dúvida o mais vantajoso.

Artigo anteriorSeis carregadores já alimentam novos “bus” elétricos de Braga
Próximo artigoNova solução para eólicas vai permitir ter turbinas 10 vezes mais potentes

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of